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Autor Tópico: Os primeiros por cá...  (Lida 2928 vezes)

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dfelix

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Os primeiros por cá...
« em: Novembro 04, 2013, 17:22:19 pm »






Sociedade
Os primeiros portugueses a fazer surf
04-11-2013


Apanhavam ondas em cima de pedaços de cortiça, iam para o mar de camisolas de lã e ceroulas e eram perseguidos por desrespeitarem a bandeira vermelha


Por Tânia Pereirinha


Eram os tempos em que os concertos de jazz se chamavam de música moderna, porque a palavra, inventada não se sabe bem por quem, no início do século XX nos Estados Unidos, era considerada subversiva pelo regime de Salazar. Na praia, os homens tinham de andar com o tronco tapado, sob pena de pagarem multas que podiam chegar aos 400 contos (2.000 euros), e os fatos-de--banho femininos de duas peças estavam terminantemente proibidos. Não havia sequer fatos-de-treino – nem em Portugal nem no resto do mundo – muito menos roupa própria para fazer desporto dentro de água sem congelar. Mesmo assim, Pedro Martins de Lima tinha um sonho: fazer como o campeão olímpico de natação Duke Kahanamoku, cuja fotografia viu, em 1945, no fim da Segunda Guerra Mundial, numa revista largada no Clube dos Oficiais Americanos, no Campo das Lajes, na Terceira, Açores, e pôr-se de pé em cima de uma prancha de madeira, com uns cinco metros de comprimento, a flutuar sobre o mar.







Pedro M. Lima (Galiza, 1982)


Queria fazer surf. E bem podia dizê-lo em voz alta, até porque essa palavra não significava nada naquela época. “O surf só começou a ser introduzido na Costa Oeste dos Estados Unidos em 1954, até então era completamente desconhecido, tirando no Havai, claro. Era uma das formas de eleição do Rei local. O capitão Cook, nas primeiras viagens que lá fez, escreveu que “os nativos passavam a rebentação em cima de tábuas e depois desciam as ondas com grande destreza”, conta Pedro Martins de Lima à SÁBADO, 68 anos depois de ter visto a revista.


Desde esse dia, em que, aos 15 anos, descobriu o surf, até ao momento em que conseguiu pôr-se de pé em cima da tal prancha, já equipado com um fato de neopreno trazido da fábrica do famoso comandante Jacques Cousteau (antes teve um fato seco de caça submarina da Pirelli, vários números acima do seu, o que não impedia a água de entrar e por isso ele usava-o sobre uma camisola de lã e ceroulas) passaram 14 anos.


O processo de evolução foi demorado: primeiro pediu a um primo que lhe trouxesse um par de barbatanas de caça submarina dos Estados Unidos e começou a fazer carreirinhas nas ondas com elas – que é como quem diz bodysurf –; depois um amigo arranjou-lhe um bocado de cortiça, côncava, tirada directamente de um sobreiro alentejano, e passou a deslizar com ela no mar – ou a fazer bodyboard –; quando em 1959 voltou de Biarritz, no Sudoeste de França, com uma das primeiras pranchas fabricadas na Europa, com 3 metros de comprimento por 55 centímetros de largura e 18 quilos de peso, já toda a gente o conhecia, de Carcavelos, onde vivia, ao Guincho.








Pedro M. Lima (Ribeira D’Ilhas, 1970)


Era o maluco que entrava no mar fosse Verão ou Inverno, mesmo quando a bandeira estava vermelha, e que era perseguido pelos cabos do mar que mantinham a ordem e os costumes nas praias.


Mal chegou a Lisboa com a prancha, foi para a praia: “Primeiro fui para Carcavelos. Tentava pôr-me de pé, escorregava e caía. Tentei São Pedro, onde as ondas eram mais espraiadas, continuava a cair.” Desesperado, voltou a Biarritz. Na Plage d’Anglet encontrou um americano, a surfar sozinho, e pediu-lhe ajuda. A resposta – Man, get a piece of wax! (“Tens de pôr cera, meu!”) – revela como se sabia pouco sobre o desporto em Portugal. Aliás, o surf nem sequer era reconhecido como tal, explica à SÁBADO João Moraes Rocha, autor de ‘História do Surf em Portugal’ e primeiro campeão nacional da modalidade, em 1977: “Em 1978 pedimos ao então director-geral de desportos autorização para organizar um campeonato europeu. Respondeu, por escrito, que não autorizava até porque o surf não era um desporto. A própria comunicação social não tinha noção, lembro-me de um repórter ter escrito, a propósito de um dos campeonatos que organizámos, que ganhava quem fizesse mais ondas.”





João M. Rocha (Carcavelos, 1978)


Foram os estrangeiros, sobretudo ingleses, australianos e americanos, que invariavelmente chegavam em carrinhas Volkswagen pão-de-forma a caminho das ondas de Marrocos, que mostraram aos portugueses, na década de 70 do século XX, como se surfava. “Na altura, o surf era limitado em termos de manobras, as pranchas não permitiam mais, apreciava-se o estilo, a fluidez com que se faziam as ondas e os tubos. Os modelos que tínhamos eram os bifes, quando apareciam saíamos da água para os ver fazer”, diz João Moraes Rocha, que começou a praticar em 1972, aos 16, com um amigo e dois dos seis irmãos, Tó-Pê e Zé, na praia de Carcavelos.


No início só tinham uma prancha para os quatro. Comprada, claro, a um inglês. “Não havia lojas onde arranjar material, esse problema durou anos, só em 1978 é que começaram a aparecer fatos e pranchas, trazidos pelas pessoas que vinham competir cá. Até lá, ficávamos com o material que os bifes nos dispensavam. Como eram todos muito maiores do que nós, os fatos ficavam-nos superlargos, a água entrava e saía. As pranchas também não eram adequadas a nós, por isso passei a ir a Inglaterra comprá-las. Trabalhava durante o Verão como nadador-salvador e no fim de Setembro, com o dinheiro que ganhava, trazia duas, uma para mim, outra para vender”, recorda o juiz desembargador, hoje com 58 anos.





Apesar de ter andado no Liceu de Oeiras e de morar a 10 minutos a pé da praia de Carcavelos, João Moraes Rocha nunca teve a tentação de faltar às aulas para fazer surf. Sempre teve boas notas, tirou duas licenciaturas, mestrado e doutoramento.


Já Carlos Vieira (na foto), 64 anos, 44 de surf, fez exactamente o contrário. E é por isso que se considera o primeiro beach boy português: “Quando comecei éramos apenas uns cinco ou seis. Os outros já tinham todos 30 e tal anos, trabalhavam, tinham família, eu era o único miúdo, fazia gazeta às aulas para ir para a praia, vivia com os meus pais que estavam sempre a ameaçar: ‘O menino só quer boa vida, qualquer dia vai trabalhar.’ Depois chumbei no terceiro ano da faculdade, já com 22, e lá fui para a tropa. Fiz o serviço militar em Moçambique, durante a guerra, de 1972 a 1974.”







Carlos Vieira (Carcavelos, 1971)


Antes disso, tinha começado a andar com os mais velhos. Recebido no grupo entretanto formado por Pedro Martins de Lima, fez várias surf trips caseiras com ele e com o filho, o Kid, para a Arrifana, na Costa Vicentina, e para o Baleal, perto de Peniche, ainda hoje um dos melhores spots do País.


não havia surf reports nem câmaras de filmar viradas para as praias, a mostrar o estado das ondas em tempo real. Entre 1969 e 1970, para não correrem o risco de chegar ao mar e não haver condições para surfar, varriam a costa, da Nazaré até à Arrifana, no avião de Vasco Pinto Basto, outro dos integrantes do grupo. “Víamos onde as ondas estavam melhores e depois avisávamos os outros pelo rádio: ‘Vamos para tal parte!’”, lembra Pedro Martins de Lima.


Quase uma década mais tarde, Nuno Jonet, agora com 61 anos, utilizava métodos mais prosaicos: andava com um exemplar do almanaque Borda d’Água, para estar a par do estado do tempo, e não perdia um boletim meteorológico. “Quando havia ondas grandes nos Açores já sabíamos que, no dia seguinte, íamos ter bom surf”, explica à SÁBADO.







Pedro M. Lima e Carlos Vieira, com Luís Furtado, à esquerda (Carcavelos, 1968)


Durante o Verão, os surfistas metiam-se invariavelmente em sarilhos com os cabos do mar. “Quando, ainda dentro de água, via uma multidão na areia com um ponto branco lá no meio, já sabia que vinham atrás de mim”, conta Pedro Martins de Lima. As conversas, garante, eram sempre iguais: primeiro os cabos do mar, que vigiavam as praias juntamente com oficiais da Polícia Marítima, chamavam-lhe louco e irresponsável por ter entrado com bandeira vermelha e explicavam-lhe que naquelas condições era proibido tomar banho; ele retorquia dizendo que não estava a tomar banho, mas a navegar; eles diziam que também era proibido nadar; ele mostrava o fato e explicava que estava vestido e por isso não conseguiria nadar. Na maior parte das vezes, a discussão acabava com pedidos de identificação e tentativas de cobrança de multa – a que o surfista nunca acedia –, mas por três vezes, uma em Cascais, duas na Costa de Caparica, chegou mesmo a ser levado para os postos da capitania. “Na altura, bem tentava explicar-lhes que o surf era uma actividade muito válida, que ia ser desenvolvida no País e ia até evitar muitos afogamentos nas praias, mas não servia de nada. Normalmente os banheiros é que me ajudavam, eles, sim, sabiam que eu já tinha salvado uma série de gente que eles não conseguiam ir lá buscar.”





J. M. Rocha (Eirceira, 1977)


De acordo com Nuno Jonet, a aceitação social dos surfistas começou assim, com o salvamento de veraneantes e, sobretudo, pescadores, durante os meses de Inverno. “Fomos buscar muita gente, isso começou a ser noticiado e depois passaram a contratar surfistas para vigiar as praias”, explica. Ironicamente, os pescadores eram os que mais odiavam a malta das pranchas, porque lhes espantavam o peixe. João Moraes Rocha chegou a ser atacado por eles, na praia de Carcavelos: “Atiravam chumbadas para nos afastar. Dói e muito! Até perceberem que não íamos desaparecer continuaram, muitas vezes ficávamos emaranhados nos fios.”


Até então, e porque a cultura do surf sempre fora próxima do movimento hippie, os portugueses não tinham grande impressão dos rapazes cabeludos que passavam o dia na praia, a apanhar ondas e a fumar charros. “Éramos tidos como marginais, fumadores de ervas, o tipo de pessoas a que ninguém se queria associar. Achavam que éramos malucos, não faziam ideia de que no Inverno é mais fácil entrar dentro de água porque a diferença de temperatura é menor. Em Aveiro, vi pais a partirem as pranchas dos filhos à machadada, porque iam ao mar e não traziam peixe”, recorda Nuno Jonet, que começou a surfar em Angola, aos 21 anos.







Nuno Jonet (Caparica, 1977)


Em Luanda, em 1973, ninguém fazia surf. Foram uns havaianos, de passagem pela praia das Palmeirinhas, que lhe apresentaram ao vivo o desporto que anos antes, ainda em Portugal, tinha visto numa série de televisão – ‘O Perigo é a Minha Profissão’. Comprou-lhes uma prancha e começou a apanhar ondas.


Até regressar a Portugal, na ponte aérea de 1975, Jonet viveu com a mulher na praia, onde surfava todos os dias das 6h às 12h, quando se levantava o vento. Ali o problema da temperatura da água não se colocava: não só não tinha fato como grande parte das vezes surfava nu. “Os fatos de banho rasgavam-se todos”, explica.


Ele e a mulher eram hippies. Viviam em tendas no areal, tinham uma barraca para cozinhar, outra para dormir, outra para se protegerem do sol durante o dia e fazerem as refeições. De vez em quando, iam a Luanda vender os colares de missangas e penas que faziam e que eram a única fonte de rendimento da família, prestes a crescer. “A minha mulher estava gravidíssima, havia sempre amigos connosco... Era mesmo idílico, a lenha vinha até nós com as marés, e os caranguejos lavavam as panelas, que deixávamos lá fora.”





Nuno Jonet


O surf veio facilitar-lhes a vida. Com a ajuda da prancha, Nuno fez um acordo com os pescadores: levava-lhes os iscos para longe, até 200 metros da costa, onde não conseguiam chegar e os peixes eram maiores, e eles retribuíam com peixe, pão e gelo. Aos sábados e domingos, dias em que a praia lotava, fazia de nadador-salvador.


Quando regressou a Portugal, continuou a viver do surf, já de forma profissional: “Percebi que os fatos de borracha eram necessários durante todo o ano, por isso fui à Austrália aprender a fazê-los. Fundei as duas primeiras surf shops do País, no fim da década de 1970. Em 1982, abri uma loja e uma fábrica em Carcavelos, fabricava tábuas para skates. O skate apareceu na mesma altura, era a forma de surfarmos em terra.”


Apesar de já raramente se pôr em cima da prancha e de ter abandonado o negócio em 1990, continua ligado à modalidade: é comentador da Association of Surfing Professionals e passou as últimas duas semanas de microfone em punho, primeiro em Peniche, onde decorreu a etapa portuguesa do campeonato mundial de surf (WCT), depois entre Carcavelos e o Guincho, na última etapa do Cascais Trophy que termina no domingo, dia 27.





Carlos Vieira (na foto), ilustrador na reforma, continua a surfar. Quando recebeu a SÁBADO, na moradia com vista para o Guincho a que chamou Anglet, em honra da famosa praia de Biarritz, não teve de recuar muito no tempo para recordar a última surfada: “Foi há dois dias. Vou para São Pedro ou para a Bafureira, têm ondas mais de acordo com a minha idade. Se bem que, como se costuma dizer, surfista não envelhece, a prancha é que cresce.”


Não se esperava outra coisa do homem que Pedro Martins de Lima, o pai do surf português, descreve como o “primeiro globetrotter” da mesma categoria. Fez duas grandes viagens à volta do mundo, quase sempre por terra e de transportes públicos: “Até aos 30 anos fui surfista, o meu bilhete de identidade dizia estudante mas era só uma capa.” Apanhou ondas no Brasil, Peru, El Salvador, México, Califórnia, Tailândia, Birmânia, Coreia do Sul, Macau e Sri Lanka. Primeiro estourou as economias que tinha juntado durante a comissão no exército, em Moçambique, depois arranjou trabalhos ao longo das viagens. Foi empregado de mesa, desenhou T-shirts, trabalhou nas obras.


No Havai, onde julgava só sobreviver uma semana, ficou dois meses: “Um coronel americano ia casar a filha e estava a precisar de gente para limpar e fazer umas obras na casa, que era em Haleiwa, um dos melhores surf breaks do North Shore de Oahu. Fartei-me de surfar. Só não fui ao casamento.”











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« Última modificação: Novembro 04, 2013, 17:35:17 pm por dfelix »
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jcabrita

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Re: Os primeiros por cá...
« Responder #1 em: Novembro 04, 2013, 17:49:47 pm »
Muito bom o artigo  !thumbup
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Pato1980

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Re: Os primeiros por cá...
« Responder #2 em: Novembro 04, 2013, 21:21:09 pm »
Excelente artigo. !palmas !thumbup !thumbup !palmas !palmas !thumbup 

Evel Knievel

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Re: Os primeiros por cá...
« Responder #3 em: Novembro 04, 2013, 21:43:21 pm »
Artigo porreiro com 2 lições:

1º- andamos sempre a reboque;
2º- quando tentamos evoluir, temos a "lei" à perna;
Se as ***** não tivessem filhos, a minha mota nunca tinha sido apreendida...

nezz

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Re: Os primeiros por cá...
« Responder #4 em: Novembro 04, 2013, 22:53:33 pm »
há um livro com este e outros artigos sobre os princípios do surf em Portugal, embora existam dados que referem que foi nos anos 20 nas praias do norte que realmente se iniciou

sollero

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Re: Os primeiros por cá...
« Responder #5 em: Novembro 04, 2013, 23:16:45 pm »
São uns senhores. Respect!
Com especial destaque para o Jonet que foi o primeiro tuga nas lides internacionais do surf. Privou e priva com a nata do surf mundial.
Speaker da ASP, fluente em muitos idiomas e por isso uma voz amiga a muitos surfistas deslocados da sua terra no decorrer do WCT, conhece como poucos a realidade do surf um pouco por todo o Mundo. Antes do saca e do muito recentemente badalado kikas, era ele quem espalhava a boa disposição tuga e fazia ver aos bifes que por cá havia ondas de qualidade prime!
É o Mr Surf Tuga!!!
"No pain no gaiN"

Frechedas

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Re: Os primeiros por cá...
« Responder #6 em: Março 20, 2015, 10:10:51 am »
"o surfista não envelhece. a prancha é que cresce."


muito bom  !palmas

 

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